Lesões nas Mãos
Atualizado 2026-07-24
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Alguém te entregou um par de luvas hoje de manhã e disse que eram resistentes ao corte. Essa frase, sozinha, quase não diz nada. A resistência ao corte é medida numa escala que vai de 200 gramas a mais de 6.000 gramas — uma faixa de trinta vezes — e toda luva dentro dela pode legitimamente ser vendida como «resistente ao corte». Se o par no seu bolso serve para o que você vai tocar depende de um número, e na maioria das obras quase ninguém foi procurar. Este Diálogo de Segurança sobre Lesões nas Mãos (Diálogo de Segurança / DDS) trata de ler esse número.
Aqui está a distinção que sustenta tudo: na maioria dos EPIs a escolha é binária — ou você está com o capacete ou não. Luvas são graduadas, e graduadas contra vários riscos diferentes que não têm nada a ver entre si. A luva certa para uma aresta de chapa é a errada para amarrações de vergalhão, e as duas são erradas perto de um eixo girando, onde a resposta certa pode ser nenhuma luva.
O número da luva#
A ANSI/ISEA 105-2016 é a norma norte-americana de classificação de proteção das mãos. Sua escala de corte tem nove níveis, A1 a A9, e cada um é uma força medida em gramas: a carga necessária para uma lâmina atravessar o material.
| Nível | Gramas para cortar |
|---|---|
| A1 | 200 – 499 |
| A2 | 500 – 999 |
| A3 | 1.000 – 1.499 |
| A4 | 1.500 – 2.199 |
| A5 | 2.200 – 2.999 |
| A6 | 3.000 – 3.999 |
| A7 | 4.000 – 4.999 |
| A8 | 5.000 – 5.999 |
| A9 | 6.000 e acima |
O método de ensaio é a ASTM F2992-15, num tomodinamômetro TDM-100: uma lâmina reta percorre trajetória reta sob carga sobre o material, com lâmina nova a cada corte, amostrando repetidamente em cargas diferentes. Esse último detalhe importa: os métodos antigos permitiam que o desgaste da lâmina favorecesse o resultado. O método atual não.
Daí decorrem três coisas que vale dizer na obra.
«Resistente ao corte» sem nível é frase de marketing, não especificação. Uma luva A1 e uma A9 são ambas resistentes ao corte. Uma segura a lâmina a 200 gramas de carga e a outra a mais de 6.000.
Classificações antigas e novas não são intercambiáveis. A revisão de 2016 substituiu a escala anterior pelo sistema A1–A9 e mudou o método de ensaio. Uma luva marcada sob a norma antiga não corresponde ao nível de mesmo número hoje. Se o almoxarifado tem estoque velho, ou você compra de mais de um fornecedor, esse descompasso está na caixa agora.
A ANSI/ISEA 105 é norma voluntária de consenso, não regulamento. Ninguém é obrigado a cumpri-la. Ela é simplesmente a base aceita para especificar proteção das mãos nos Estados Unidos — o que significa que o número na luva só serve se alguém o escolheu deliberadamente.
O que a norma realmente exige#
Não existe norma dedicada à proteção das mãos nas regras de construção da OSHA como existe na indústria geral. O que se aplica é mais amplo:
- O 1926.95(a) exige que equipamento de proteção para as extremidades seja fornecido, usado e mantido em condição higiênica e confiável onde for necessário em razão de riscos capazes de causar lesão por absorção, inalação ou contato físico.
- O 1926.28(a) responsabiliza o empregador por exigir o uso de EPI apropriado em todas as operações com exposição a condições perigosas.
- O 1910.138 da indústria geral é a referência útil sobre como escolher: a proteção das mãos deve ser selecionada com base numa avaliação das características de desempenho em relação à tarefa, às condições presentes, à duração do uso e aos riscos identificados. Ele nomeia os riscos que tem em mente: absorção cutânea de substâncias nocivas, cortes ou lacerações graves, abrasões graves, perfurações, queimaduras químicas, queimaduras térmicas e temperaturas extremas.
No Brasil, a NR-06 rege os Equipamentos de Proteção Individual: o EPI só pode ser comercializado ou utilizado com Certificado de Aprovação (CA) emitido pelo órgão competente, e cabe ao empregador fornecer gratuitamente o EPI adequado ao risco, orientar e treinar sobre o uso, e substituir quando danificado. Ou seja, aqui há um número a mais para conferir além do nível de corte: o CA impresso na luva.
Repare no que essa lógica diz: o dever não é «entregar luvas». É casar a luva com a tarefa. Uma caixa de um único tipo de luva para a obra inteira não atende isso, por melhor que a luva seja.
Corte não é perfuração não é abrasão#
Este é o erro que manda gente ao hospital usando as luvas certas.
Pela ANSI/ISEA 105, resistência ao corte, à perfuração e à abrasão são propriedades distintas, ensaiadas e classificadas separadamente. Uma luva pode pontuar alto numa e baixo noutra. Alta resistência ao corte normalmente vem de fibras que resistem a uma lâmina que fatia — e fatiar não é o que faz a ponta de uma amarração de vergalhão, um arame, uma farpa ou um prego. Esses são riscos de perfuração, e vencem uma luva de corte passando entre as fibras em vez de atravessá-las.
Então a pergunta nunca é «tenho luva de corte?». É o que esta tarefa faz com uma mão:
- Aresta que fatia — chapa, vidro, fita de arqueação, lâminas, aço cortado → classificação de corte
- Ponta — amarrações de vergalhão, arame, pregos, farpas, cavaco → classificação de perfuração
- Contato abrasivo — concreto, bloco, madeira bruta, discos abrasivos → classificação de abrasão
- Químico — solventes, aditivos, combustíveis, epóxis → dados de permeação química, não nível de corte
- Calor — trabalho a quente, tubulação quente, escapamentos → classificação térmica
- Impacto — dedos golpeados, esmagamento, material caído → proteção de impacto no dorso
São luvas diferentes, e um par raramente cobre bem duas delas.
Mais alto não é mais seguro#
Isto é contraintuitivo o bastante para ser dito direto. Comprar o maior nível de corte disponível costuma ser a decisão errada.
Proteção alta contra corte geralmente significa luva mais grossa, mais rígida, com menos destreza e menos tato. Daí saem três coisas:
- Os trabalhadores tiram. Uma luva que inviabiliza a tarefa é removida «só nesta parte» — justamente a parte com o risco.
- A perda de destreza causa suas próprias lesões. Deixar cair uma peça, apertar demais uma ferramenta ou perder controle fino coloca a mão no risco do qual ela estava protegida.
- A força de preensão sobe. Luvas rígidas exigem mais aperto para segurar o mesmo objeto, o que alimenta diretamente os problemas de esforço repetitivo que o resto deste pacote cobre.
A escolha certa é o menor nível que cubra o risco real e continue vestível durante toda a tarefa. Uma luva A3 que fica na mão ganha de uma A6 no bolso.
A luva que causa a lesão#
Algumas tarefas são mais seguras sem luva. Perto de máquinas rotativas — furadeiras de bancada, tornos, esmerilhadeiras de bancada, trados, eixos girando — a luva pode ser agarrada e puxar a mão para dentro, transformando um contato leve em amputação. É uma inversão real da regra habitual, e precisa ser dita explicitamente: verifique as exigências da máquina antes de supor que a luva protege.
A mesma lógica vale para punhos folgados perto de partes móveis, anéis e joias sob a luva, e luvas tão grandes que as pontas passam da mão.
O que pode dar errado?#
Uma luva para toda tarefa. A obra compra um tipo em volume e entrega para tudo.
Nunca ler o nível. A classificação está impressa no punho ou no dorso, e quase ninguém olha.
Misturar classificações velhas e novas. Duas caixas na mesma prateleira, classificadas por versões diferentes da norma.
Luva de corte contra risco de perfuração. Amarrações de vergalhão e pontas de arame passando entre as fibras.
Luvas gastas ainda em uso. A proteção contra corte se degrada com abrasão, contaminação, lavagem e furos. Uma luva gasta mantém a classificação impressa e nada do desempenho.
Luvas molhadas, oleosas ou contaminadas que já não pegam, causando a queda ou o escorregão que machuca a mão.
Luvas perto de equipamento rotativo onde não deveriam ser usadas.
Linha de fogo. A mão colocada onde a carga vai cair, a ferramenta vai escorregar ou o material vai se deslocar — nenhuma classificação de luva cobre isso.
Escorar com a mão. Firmar uma peça, um painel ou um tubo com a mão na trajetória do corte, da broca ou da carga.
Tirar «um segundo» para a parte delicada da tarefa, que normalmente é a da aresta cortante.
Anéis. Lesões por arrancamento quando o anel engancha, com ou sem luva por cima.
Como proteger as mãos?#
Identifique o que a tarefa faz com uma mão antes de escolher a luva. Fatiar, perfurar, abrasão, químico, calor ou impacto.
Leia o nível ANSI e especifique na análise de risco. «A4 de corte com palma revestida» é especificação. «Luva de corte» não é.
Escolha o menor nível que cubra o risco e continue vestível. Destreza é propriedade de segurança, não preferência de conforto.
Busque classificação de perfuração separadamente para vergalhão, arame e cavaco.
Mantenha as mãos fora da linha de fogo. A melhor proteção é o único controle que nenhuma luva substitui: use grampo, gabarito, empurrador, ímã, gancho ou uma segunda pessoa, para a mão nunca estar onde a energia vai.
Verifique a máquina antes de calçar a luva. Equipamento rotativo pode exigir mãos nuas.
Inspecione e substitua luvas. Furos, palmas gastas, contaminação e enrijecimento significam que a classificação impressa não vale mais.
Tire os anéis antes do trabalho, sob qualquer luva.
Relate cortes e perfurações imediatamente, por menores que pareçam: feridas na mão infeccionam e o dano a tendões e nervos nem sempre é evidente na hora.
Em projetos do USACE e da NAVFAC aplica-se o EM 385-1-1, com exigências próprias de seleção de EPI e avaliação de riscos.
Antes de começar#
- Identifique o risco específico para a mão: fatiar, perfurar, abrasão, químico, calor ou impacto.
- Leia o nível ANSI impresso na luva e confirme que corresponde a esse risco.
- Confirme o CA da luva, conforme a NR-06.
- Confirme que não está confiando numa classificação de corte contra risco de perfuração.
- Confirme que as luvas estão íntegras: sem furos, palmas gastas ou contaminação.
- Confirme que a luva permite destreza suficiente para fazer a tarefa inteira com ela.
- Verifique se o equipamento exige remover luvas, especialmente máquinas rotativas.
- Tire anéis e ajuste punhos folgados.
- Identifique onde suas mãos estarão se a ferramenta escorregar ou a carga se deslocar — e mude.
- Confirme onde está a caixa de primeiros socorros e quem relata uma lesão na mão.
Vamos conversar#
- Olhe o punho da sua luva. Qual nível está impresso ali e o que esse número significa?
- Qual é a coisa mais cortante ou mais pontiaguda que você vai tocar hoje, e é risco de corte ou de perfuração?
- Onde suas mãos estarão se aquilo que você está cortando, furando ou levantando se mover de repente?
Resumindo#
«Resistente ao corte» não é especificação. A ANSI/ISEA 105-2016 gradua a proteção contra corte de A1 (200–499 gramas para cortar) a A9 (6.000 gramas e acima), medida no ensaio ASTM F2992-15 com lâmina nova a cada corte — e toda essa faixa de trinta vezes é vendida sob as mesmas duas palavras. Classificações anteriores à revisão de 2016 não são comparáveis com as de hoje. Corte, perfuração e abrasão são classificações separadas, então luva de corte não segura amarração de vergalhão. Escolha o menor nível que cubra o risco real e continue vestível, porque luva de alto nível no bolso não protege ninguém. E no Brasil, confira também o CA, conforme a NR-06. Acima de tudo, lembre do controle que supera qualquer luva: manter a mão fora da linha de fogo desde o início.
Perguntas frequentes sobre lesões nas mãos#
O que significam os níveis de corte ANSI A1 a A9?
São as classificações de resistência ao corte da ANSI/ISEA 105-2016, cada uma definida pelos gramas de carga necessários para atravessar o material no ensaio ASTM F2992-15: A1 é 200–499 g, A2 500–999 g, A3 1.000–1.499 g, A4 1.500–2.199 g, A5 2.200–2.999 g, A6 3.000–3.999 g, A7 4.000–4.999 g, A8 5.000–5.999 g e A9 6.000 g e acima.
Classificações antigas são iguais às novas?
Não. A revisão de 2016 substituiu a escala anterior por A1–A9 e padronizou o ensaio na máquina TDM-100 pela ASTM F2992-15. Uma classificação emitida sob a versão antiga não corresponde ao nível de mesmo número hoje.
A norma exige luvas resistentes ao corte?
A OSHA não impõe um nível de corte específico. Em construção, o 1926.95(a) exige equipamento de proteção para as extremidades onde necessário em razão de riscos capazes de causar lesão, e o 1926.28(a) responsabiliza o empregador por exigir EPI apropriado. No Brasil, a NR-06 exige que o EPI tenha Certificado de Aprovação (CA) e que o empregador forneça gratuitamente o EPI adequado ao risco.
Nível de corte maior é sempre melhor?
Não. Níveis altos geralmente significam luvas mais grossas e rígidas, com menos destreza e tato. Isso leva a luvas removidas em trabalhos delicados, a falhas de manuseio que colocam a mão no risco, e a maior força de preensão, que contribui para lesões por esforço. Selecione o menor nível que cubra adequadamente o risco mantendo destreza suficiente para a luva ser usada a tarefa inteira.
Luva resistente ao corte segura uma perfuração?
Não de forma confiável. Pela ANSI/ISEA 105, corte, perfuração e abrasão são propriedades distintas, ensaiadas e classificadas separadamente. Fibras resistentes ao corte resistem a uma lâmina que fatia; a ponta de uma amarração de vergalhão, um arame, um prego ou uma farpa pode passar entre as fibras.
Há tarefas em que não se deve usar luva?
Sim. Perto de máquinas rotativas — furadeiras de bancada, tornos, esmerilhadeiras, trados e eixos girando — a luva pode ser agarrada e puxar a mão para dentro do equipamento, transformando uma lesão de contato em amputação. Verifique as exigências da máquina antes de supor que a luva protege.
Como sei quando trocar as luvas?
Quando o material estiver comprometido, independentemente do que a etiqueta ainda diga. Furos, palmas gastas ou afinadas, cortes no tecido, contaminação química, enrijecimento e sujeira pesada significam que a classificação impressa não reflete mais o desempenho. Inspecione as luvas como parte da verificação antes da tarefa.
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Fontes#
- OSHA, 29 CFR 1926.95 — Criteria for personal protective equipment: https://www.osha.gov/laws-regs/regulations/standardnumber/1926/1926.95
- OSHA, 29 CFR 1926.28 — Personal protective equipment: https://www.osha.gov/laws-regs/regulations/standardnumber/1926/1926.28
- OSHA, 29 CFR 1910.138 — Hand protection: https://www.osha.gov/laws-regs/regulations/standardnumber/1910/1910.138
- International Safety Equipment Association, ANSI/ISEA 105-2016 — American National Standard for Hand Protection Classification
- ASTM International, F2992/F2992M-15 — Standard Test Method for Measuring Cut Resistance of Materials Used in Protective Clothing with Tomodynamometer (TDM-100) Test Equipment
- Ministério do Trabalho e Emprego, NR-06 — Equipamento de Proteção Individual
Written by FieldSafetyTalk's safety professional — a CSP, ASP, CHST and OSHA Authorized Outreach Trainer with 14+ years of international construction safety experience across federal, heavy civil, and industrial projects.